O que ocorreu com a água após o desastre em Mariana?

27 nov O que ocorreu com a água após o desastre em Mariana?

Thadeu Paravidino

O recente acidente com o rompimento da barragem de rejeitos em Bento Rodrigues/MG, da mineradora Samarco, ganhou destaque mundial em consequência das 13 mortes e milhares de desabrigados. As consequências desse acidente se estendem por muitos municípios, à medida que a lama segue o curso do Rio Doce e atinge o mar, gerando danos ambientais catastróficos e provocando o desabastecimento de água para a população que vive da bacia desse importante rio.

Uma barragem de rejeitos é uma estrutura de terra construída para armazenar resíduos de mineração, os quais são definidos como a fração estéril produzida pelo beneficiamento de minérios, que normalmente ocorre em um processo químico que divide o mineral bruto em concentrado e rejeito. O rejeito é um material que não possui valor econômico e apresenta elevado grau de toxicidade, além de partículas dissolvidas e em suspensão, metais pesados e reagentes. Para salvaguardas ambientais, o rejeito deve ser devidamente armazenado nas barragens.

No caso de Mariana, a estrutura que segurava todo esse rejeito se rompeu, fazendo com que bilhões de litros de um líquido de altíssima densidade em forma de lama escoassem pela encosta, causando destruição no caminho, atingindo rios da região que levaram a lama até o Rio Doce e, em seguida, chegando no mar. Um percurso que levou cerca de 17 dias e contaminou a bacia hidrográfica da região.

Os danos ambientais são impressionantes. Os sólidos em suspensão no rejeito são formados por partículas muito finas, o que causou um pico na turbidez da água do rio. As reações químicas ocorridas sequestraram o oxigênio dissolvido na água, causando a mortandade de peixes. Com baixa taxa de oxigênio e alta carga orgânica, a proliferação de bactérias anaeróbicas foi inevitável, trazendo um odor característico.

Agora, uma vez no mar, esses contaminantes tendem a se espalhar pela costa, atingindo manguezais, que são santuários de reprodução de dezenas de espécies de peixes, crustáceos e aves; praias de reprodução de tartarugas, incluindo as tartarugas gigantes; corais e outros estuários.

Além do impacto ambiental, as estações de tratamento de água das cidades não conseguem fazer o tratamento com a mudança brusca ocorrida na qualidade da água do rio. Sedimentos em excesso e, principalmente, metais pesados, não conseguem ser processados por essas estações, que interromperam a captação de água até que o rio apresente condições físico-químicas dentro dos limites de qualidade aceitável para tratamento.

Apesar de existir tecnologia capaz de fazer o tratamento de água com essa taxa de contaminação, as estações atuais desses municípios não foram projetadas para isso, mas para tratar a água normal e natural do Rio Doce. Modificações ou até mesmo novas estações podem ser necessárias caso o rio não consiga renovar a água até condições favoráveis.

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*Gerente Técnico do Grupo Vicel